A interoperabilidade entre equipamentos, plataformas e redes de comunicação está se tornando uma condição para ampliar projetos de Internet das Coisas (IoT) em serviços públicos. Representantes da Sabesp, Enel e do setor de iluminação pública defenderam padrões que permitam substituir fornecedores e tecnologias ao longo da vida útil dos projetos, durante o Workshop Desenvolvimento do Ecossistema M2M/IoT no Brasil, realizado pela Anatel nesta quinta-feira, 13, em Brasília.
O tema apareceu no Painel 2, “A rede para cidades que pensam e reagem”, que reuniu empresas de saneamento, energia, telecomunicações e iluminação pública. A preocupação decorre, entre outros fatores, do horizonte dos projetos: medidores e outros dispositivos conectados podem permanecer em operação por dez anos ou mais, enquanto fornecedores, redes e tecnologias de comunicação podem mudar nesse intervalo.
Na Enel, o debate já envolve um conceito adicional. Weules Correia, gerente de Medição Remota da companhia, afirmou que, além da interoperabilidade, as distribuidoras precisam considerar a intercambiabilidade dos componentes.
“Trago mais uma palavra para essa discussão, que para a gente faz sentido: não só a interoperabilidade, mas também a intercambiabilidade, que é a possibilidade de você usar diferentes acessórios e componentes na reposição”, afirmou. Segundo ele, o objetivo é evitar “o aprisionamento a um determinado fabricante”.
Enel vê discussão na Anatel como avanço
Correia relacionou diretamente o problema à regulação. Segundo ele, determinados sistemas de medição podem nascer estruturados de ponta a ponta em torno de um único fornecedor, limitando posteriormente a possibilidade de interoperabilidade.
O executivo avaliou positivamente que a discussão esteja ocorrendo dentro da Anatel. “Essa discussão de interoperabilidade acontecendo dentro de um agente regulador é fantástica para a gente como usuário da tecnologia”, afirmou.
A Enel já trabalha com quatro fabricantes diferentes em seu projeto de medição inteligente. Para Correia, essa diversificação amplia a liberdade da distribuidora diante do ciclo de vida dos equipamentos e reduz a dependência comercial de um único fornecedor.
A questão também alcança tecnologias legadas. Durante o painel, o executivo relatou que a companhia ainda possui mais de 10 mil pontos utilizando 2G, situação que reforça a necessidade de acompanhar a evolução das redes de telecomunicações ao especificar equipamentos destinados a permanecer vários anos em campo.
Sabesp adota SGP.32 e protocolos abertos
Na Sabesp, o risco de aprisionamento tecnológico foi considerado na arquitetura do projeto de R$ 3,9 bilhões para implantação de 4,4 milhões de medidores inteligentes em São Paulo e São José dos Campos até dezembro de 2029.
Daniel Senna, gerente do Projeto de Medição Inteligente da companhia, lembrou experiências anteriores do setor elétrico em que redes privativas e soluções proprietárias vinculavam a operação a fornecedores específicos durante anos.
“Ter um casamento com um fabricante, fornecedor e uma operadora, para o lado do negócio do contratante, pode ser um risco”, afirmou.
Para reduzir esse risco, a Sabesp adotou o padrão SGP.32 da GSMA, voltado ao gerenciamento remoto de eSIM em IoT. A arquitetura permite trabalhar com perfis de operadoras sem exigir a substituição física de milhões de chips. O projeto também utiliza protocolos abertos na comunicação dos medidores.
“Se a gente tiver que fazer alguma alteração, fica muito mais fácil, tanto para Sabesp quanto para Vivo. Está tudo dentro do sistema. Então a gente padronizou um sistema com padrões abertos”, disse Senna. A empresa trabalha para integrar diferentes fabricantes à mesma arquitetura.
Iluminação pública cobra padrão para ganhar escala
O mesmo problema aparece nas concessões de iluminação pública. Marcelo Menegatto, presidente da BH Iluminação Pública, relatou que a primeira geração de soluções de telegestão estimulou o desenvolvimento de produtos por diferentes empresas, mas muitas adotaram arquiteturas proprietárias.
Segundo ele, essas soluções apresentam dificuldades para ganhar escala e podem criar dependência durante contratos que chegam a dez, 12 ou até 20 anos.
“Hoje, eu não tenho interoperabilidade de fabricantes nesse mercado de telegestão de iluminação pública”, afirmou. Para Menegatto, a convergência para padrões é necessária tanto para reduzir custos quanto para evitar que a concessão ou o município permaneça vinculado ao mesmo fornecedor durante todo o contrato.
O setor já possui 158 concessões vigentes, cobrindo 187 municípios e mais de 60 milhões de habitantes. Em 140 municípios, as concessões incorporaram sistemas de telegestão, nos quais luminárias podem ser controladas remotamente e funcionar como pontos de uma infraestrutura mais ampla para sensores e aplicações de cidades inteligentes.
Para Menegatto, a evolução para uma segunda geração de soluções precisa incorporar maior preocupação com padrões de conectividade. A avaliação apresentada no painel é que a padronização pode ampliar a escala do mercado, reduzir custos e evitar que investimentos públicos e concessões de longo prazo fiquem associados a arquiteturas fechadas.
Fonte: Tele.sintese