Existe uma tendência de associar o conceito de Smart City às tecnologias que chegam ao cidadão com objetivo de facilitar e melhorar a qualidade de vida nos centros urbanos como Mobilidade Urbana (semáforos inteligentes, transportes públicos conectados, sensores de estacionamento etc.), Infraestrutura e Gestão de Recursos Públicos (iluminação inteligente, bueiros e lixeiras conectadas, redes de energia inteligentes ou Smart grids) e Segurança Pública (drones, videomonitoramento, bodycams conectadas, botões de pânicos públicos).
Mas por trás de todos esses recursos, existe uma infraestrutura robusta de TI e conectividade que permitem construir as bases operacionais para sustentar esses serviços de forma a garantir a sustentabilidade e a governança dos investimentos públicos, como redes 5G, plataformas de IoT, Inteligência Artificial entre outros sistemas digitais. Nesse sentido o Brasil vem adotando um caminho especialmente particular para viabilizar a construção de cidades conectadas: as Parcerias Público-Privadas (PPPs) de iluminação pública.
O valor das PPPs como meio catalizador dessa inovação tecnológica vai além da ampliação e modernização dos parques luminotécnicos municipais, está no gerenciamento de ativos e operações que são agregados à administração pública. Ao estruturar contratos de longo prazo com indicadores de desempenho, responsabilidades claramente definidas e mecanismos permanentes de acompanhamento e controle, elas trazem à cena práticas já consolidadas em setores como telecomunicações, infraestrutura crítica e serviços gerenciados.
Na prática, as PPPs de iluminação ajudam a transformar o ecossistema urbano em um ambiente monitorado, mensurável e orientado por resultados, oferecendo aos municípios instrumentos concretos para gerenciar ativos distribuídos por todo o espaço. Essa evolução ganha relevância quando se considera o desafio da integração dos “silos de informação” da administração pública.
Historicamente, as funções municipais foram pensadas individualmente e evoluíram de forma isolada. Mobilidade, segurança, iluminação, meio ambiente e defesa civil desenvolveram suas próprias estruturas, bases de dados e rotinas operacionais, criando uma cidade fragmentada do ponto de vista gerencial. A promessa-base das Smart Cities é justamente superar essa fragmentação, conectando diferentes áreas para que passem a operar de forma integrada, com inteligência conjunta capaz de apoiar decisões estratégicas.
Contudo, antes de se tornar inteligente, um território precisa se tornar observável – conhecer seus ativos, medir níveis de serviço (SLA) e integrar informações capazes de apoiar decisões mais rápidas e eficientes. É nesse contexto que essas PPPs ultrapassaram o mero objetivo de iluminar e transformaram-se em uma plataforma de gerenciamento que pode atender às demandas de uma sociedade digital.
Escala nacional
Nos últimos anos, o Brasil assistiu a uma expansão expressiva desse modelo. Segundo a Associação Brasileira das Concessionárias de Iluminação Pública e Cidades Inteligentes (ABCIP), a quantidade de concessões passou de 17 em 2019 para 146 em 2025. Atualmente, mais de 150 contratos de PPPs abrangem cerca de 180 municípios e beneficiam 57 milhões de brasileiros, movimentando aproximadamente R$ 32 bilhões em investimentos.
Esses números revelam um movimento de transformação da infraestrutura urbana em escala nacional. O LED aumenta a eficiência luminosa e reduz o consumo de energia elétrica, mas representa apenas um dos elementos de uma arquitetura distribuída, permanentemente energizada e apta a suportar outras tecnologias associadas à transformação digital das cidades.
É nesse ponto que a modernização da iluminação pública se converte em uma agenda de Smart Cities, viabilizando instalação em rede de sensores ambientais, sistemas de monitoramento de tráfego, videovigilância, controle inteligente de ativos e aplicações baseadas em IoT. Tudo isso integrado aos protocolos de telegestão e conectividades das PPPs para extrair as informações que tornem a administração mais ágil e com benefícios concretos para os cidadãos.
O próximo passo
Assim como a energia elétrica foi o alicerce da industrialização, a conectividade ocupa papel semelhante na economia digital. Sem redes robustas, coleta estruturada de dados e integração entre sistemas, as cidades terão dificuldade para evoluir seus modelos de administração, independentemente da quantidade de tecnologia que adotem.
É sob essa perspectiva que as PPPs de iluminação pública devem ser observadas. Seu legado não estará apenas na modernização de lâmpadas e sensores, mas na criação de uma estrutura preparada para conectar serviços, gerar informações e sustentar novos modelos de governança urbana. Ao combinar observabilidade, conectividade e gestão baseada em resultados, representam a porta de entrada mais concreta e escalável para a construção das cidades inteligentes no Brasil.
Fonte: Infor Channel – Por Vanderlei Rigatieri, CEO e fundador da WDC Networks